07 fevereiro, 2017

AS SANDÁLIAS DE ITAGIBA

Por:
Rosiclelia Matuk Fuentes Torrelio
Regional RIO DE JANEIRO







Reencontrei-o, após longos 20 anos da Faculdade de Medicina, num plantão de domingo, em Cabo Frio. O tempo o havia preservado incólume. Os mesmos cabelos cacheados, a mesma camiseta branca, o mesmo jeans e as mesmas sandálias “de pneu”. Quase nada havia mudado, apenas alguns cabelos brancos.

Havia feito Psiquiatria e era nosso plantonista de sábado. Sempre tínhamos um psiquiatra que participava da equipe e atendia, quando atendia, apenas um paciente por plantão. Não posso deixar de externar minha inveja. Nós, meros trabalhadores braçais menos agraciados pelos Deuses, nutríamos certa admiração. “ Porque não havia escolhido a Psiquiatria... ”, lamentava-me.

Sua rotina, nos finais de semana, iniciava-se ao ler todos os jornais, deitado na cama com as pernas cruzadas para cima. A seguir, nos fazia um resumo das notícias trágicas, mantendo o teor de adrenalina da equipe sempre elevado, com a preocupação de nos depararmos com o mesmo problema naquele dia.

A seguir nos enunciava as possibilidades gastronômicas do dia, ao nos comunicar o local em que iria almoçar, enquanto para nós, simples mortais, restava apenas o cardápio do dia de teor sempre duvidoso. Voltava praticamente em estado de graça, o olhar extasiado, comentando que o leitão à pururuca estava ótimo ou que o espaguete de frutos do mar, divino... 

Num desses plantões, num sábado de carnaval, chegou ao pronto socorro, um paciente negro de mais ou menos uns dois metros de envergadura, robusto e de ombros largos. Não, ele não gritava de dor, grunhia ou rosnava escoltado por quatro homens que o seguravam com dificuldade. Foram necessários seis esquálidos auxiliares de enfermagem sentarem-se sobre o paciente ao solo, para conterem sua fúria. A enfermeira, desesperada, correu ao quarto dos médicos em busca do “salvador”.

Num canto da sala de emergência, numa das macas,eu suturava a fronte de um bêbado, tarefa normal para um dia de carnaval, quando percebi a entrada de tal criatura cuja estatura daria sem dúvida quase duas vezes a do nosso psiquiatra de plantão.

Sim, finalmente, eu veria nosso psiquiatra em ação e, não perderia isso por nada desse mundo. Posicionei-me com meu bêbado de forma a assistir em detalhes o desencadear dos fatos.

Foram longos os minutos que se sucederam à entrada triunfante do médico, como uma cena em “ slow motion”. Pé ante pé, balanço lento cadenciado, dando a impressão de que a enfermeira o havia tirado do seu sagrado descanso.

Posicionou-se ao lado do paciente, que ainda era contido com sacrifício no chão. Observou a fúria com que o enorme homem tentava soltar-se, e após determinar a medicação para a enfermeira, iniciou em vão suas técnicas de controle.

- “Meu amigo, vamos parar com esse teatro! Meu amigo, vamos parar com esse teatro” cada vez com maior intensidade de comando pela segunda, terceira, quarta vez sucessivamente e nada acontecia.

Foram segundos intermináveis e, de sopetão, o paciente conseguiu soltar o braço que estava preso e pegou firmemente o tornozelo do médico, que tentava inutilmente se manter no comando da situação.

Agora mudava o comando: -“Meu amigo, larga minha perna! MEU AMIGO, LARGA MINHA PERNA !” .Não percebia que falava cada vez mais alto .

Ao puxar a perna, o inesperado acontece, a sandália arrebenta. Seu rosto transfigurou-se, vi pela primeira o ódio estampado na face do doutor que, aos gritos dizia:- “MEU AMIGO , O SENHOR VIU O QUE FEZ?”.

A enfermeira em dúvida do que deveria fazer perguntou-me: - “O que faço doutora? ”..Doce vingança, pensei,  o destino colocava em minhas mãos a decisão. Confesso que meu primeiro pensamento foi mandar aplicá-la no próprio doutor ou dividi-la entre os dois, porém a ética não me permitiria...

A pressão dos auxiliares tornava-se tênue. Sem que ninguém esperasse, o paciente conseguiu desvencilhar-se, ficou de pé e saiu caminhando a passos firmes do pronto socorro sem olhar para trás, enquanto Itagiba em vão tentava controlar-se.

Nessa noite, ele não comeu leitão, falou sozinho o tempo todo, pela madrugada afora, lamentando-se pela sandália: - “Essas sandálias eram do tempo de faculdade!”, disse-me como se eu não soubesse.

Um ano após sair do plantão, voltei no Natal apenas para visitar os colegas médicos e ler a crônica escrita sobre Itagiba. Lá estava ele com as mesmas sandálias agora consertadas...

Moral da História: jamais arrebentem as sandálias de um psiquiatra, pois eles mantêm com elas uma total relação de dependência afetivo-emocional-sexual!









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